Cinemateca mostra documentário em autodescrição a
deficientes visuais
06/12/2012
18:18:00
Com muita
empolgação, 30 alunos do Instituto Paranaense de Cegos assistiram a dois
documentários sobre cidadania nesta quinta-feira (6), na Cinemateca, pelo
sistema de audiodescrição, recurso que apresenta narrativas da história, dos
personagens e da disposição das imagens. O evento faz parte da programação da
7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul.
Os alunos
assistiram aos documentários Extremos, de João Freire (Brasil, 24 min., 2011,
doc.) e À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel (Brasil, 72 min., 2003, doc.). A
carioca Nazilete da Silva, 56 anos, deficiente visual desde os 30, em
consequência de um acidente vascular cerebral, lembra do último filme que
assistiu quando ainda enxergava – Ghost, uma produção norte-americana. A sessão
desta quinta-feira foi a segunda que assistiu depois que perdeu a visão. A
primeira foi em 2011, também na Cinemateca.
Para ela
já é normal essa mistura de sons que pode parecer estranha aos ouvidos e aos
olhos de quem tem a visão plena. Nazilete consegue chegar a uma boa compreensão
da história, ainda que as narrativas sejam muitas vezes sobrepostas por causa
da velocidade das imagens. No final da sessão, debateu o conteúdo político dos
dois documentários que assistiu com seu namorado José Maria Sereno, também
deficiente visual e companheiro de instituto, onde mora há mais de dez anos.
Nazilete
veio do Rio de Janeiro e o namorado, de Marília, interior de São Paulo. Ambos
optaram por Curitiba por causa da infraestrutura que a cidade oferece em termos
de acessibilidade. Para eles, em Curitiba o transporte público é mais
acessível. Eles observam ainda que em relação às suas respectivas cidades, há
em Curitiba um número maior de guias rebaixadas e pisos táteis, principalmente
nas áreas mais centrais da cidade.
“Além
dessa preocupação da cidade com os cegos, aqui as pessoas são mais cordiais e
estão sempre dispostas a nos ajudar”, comenta Nazilete, que também conta com o
serviço de transporte especial ofertado pela Prefeitura de Curitiba para
levá-la até um hospital, três vezes por semana, para sessões de hemodiálise.
Por causa
do diabetes ela perdeu a visão e teve que readaptar totalmente sua vida, a
começar pela troca de casa. Vilma Callegari, 47 anos, morava em São José dos
Pinhais, Região Metropolitana da Curitiba, e há 7 anos mudou-se para Curitiba
para morar no Instituto Paranaense dos Cegos. Vilma conta que durante 40 anos,
quando ainda enxergava, nunca havia ido ao cinema. Só via filmes pela
televisão. “Depois que perdi a visão esta é a segunda vez que venho ao cinema e
eu gostei muito da experiência”, afirma.
Vilma
conta que já acostumou seus ouvidos a ouvir vários sons ao mesmo tempo,
aprendendo a separar e “visualizar” as coisas por meio da audição. Na opinião
dela, filmes do circuito comercial também poderiam ser exibidos com essa
técnica da audiodescrição. “Assim nós que somos cegos poderíamos vir mais ao
cinema e assistir a outros tipos de filmes”.
Documentários
- O filme
À Margem da Imagem traz um painel sobre as rotinas de sobrevivência, o estilo
de vida e a cultura dos moradores de rua de São Paulo, abordando temas como
exclusão social, desemprego, alcoolismo, loucura, religiosidade, degradação
urbana, identidade e cidadania. O filme também trabalha a questão do roubo da
imagem dessas comunidades, promovendo, assim, uma discussão ética dos processos
de estetização da miséria.
O documentário Extremos apresenta a Vila Estrutural, comunidade situada no Distrito Federal, os moradores não têm seus direitos básicos garantidos, e lá não existem condições para mudar a situação. Como contraponto, é apresentado o bairro de Santo Amaro, em Recife, que no passado recente enfrentou problemas semelhantes e conseguiu transformar esse quadro graças à parceria entre sociedade e poder público.
O documentário Extremos apresenta a Vila Estrutural, comunidade situada no Distrito Federal, os moradores não têm seus direitos básicos garantidos, e lá não existem condições para mudar a situação. Como contraponto, é apresentado o bairro de Santo Amaro, em Recife, que no passado recente enfrentou problemas semelhantes e conseguiu transformar esse quadro graças à parceria entre sociedade e poder público.
Mostra - A coordenadora local da mostra
na Cinemateca, Isabela Pagliosa, afirma que as produções de filmes com o
recurso da audiodescrição são uma forma de inclusão do deficiente visual na
mostra, que tem como foco a reflexão sobre os direitos humanos na América do
Sul. “O material é produzido com esses recursos para permitir aos deficientes
visuais uma melhor compreensão do filme”, disse ela.
A mostra
Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que vai até este sábado (8), é
promovida pelo Ministério da Cultura, Secretaria de Direitos Humanos da
Presidência da República e Cinemateca Brasileira, com o patrocínio da Petrobras
e apoio local da Prefeitura de Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba.
A mostra
de cinema tem por objetivo promover o debate e uma reflexão quanto à diversidade
e ao respeito aos direitos humanos. A mostra de 2012 teve 255 filmes inscritos,
dos quais 37 foram selecionados para serem exibidos em 27 capitais do país.
Os filmes
são exibidos na Cinemateca de Curitiba fica na Rua Carlos Cavalcanti, 1174, e tem
capacidade para 104 lugares.
Confira a
programação completa da mostra no site www.cinedireitoshumanos.org.br.
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